Binários

QUEIROZ, Tania. 

Binários. Rio de Janeiro: Paço Imperial, 2019.

Os trabalhos de Tina Velho nos levam a diferentes tempos, espaços e à memórias que talvez ainda não tenhamos, mas que podemos pressentir. Por meio de imagens e objetos, somos conduzidos a lugares que reconhecemos, a céus que já visitamos e a conhecimentos que nos foram compartilhados em outros tempos. As referências são muitas e a arte nos possibilita essas leituras que não se esgotam com a imagem, nem tampouco com o que aí está em presença. O que vemos pode nos indicar muitas outras coisas, que estão ou estiveram em nós e em nossas vidas de alguma forma e em algum outro momento.

 

O título da exposição - BINÁRIOS - pode se referir à célula rítmica formada por dois tempos na música, à classificação de gênero ou sexo, ao sistema de numeração e à computação, a algo que é composto por dois elementos de informação ou, como prefere a artista, “aos sistemas binários e multiestelares,

que consistem de duas ou mais estrelas que estão gravitacionalmente ligadas, movendo-se umas em torno das outras em órbitas estáveis”.

As referências a constelações e às figuras de pessoas, animais ou objetos que os astrônomos da antiguidade imaginaram ser formadas por elas estão presentes no trabalho da artista e, de alguma maneira – ora por sua configuração, ora pelo título da obra, ora por sua projeção – , são identificadas.

As constelações, que mudam com o tempo, e que são sistemas de atração e repulsão presentes no movimento contínuo existente na terra e no universo, se articulam na exposição com outras figuras, essas de pássaros, que fazem parte do repertório da artista desde os anos 1980.

Vemos aqui uma pesquisa em processo que não se restringe a procedimentos estabelecidos ou à determinadas linguagens artísticas. Tina Velho transita por técnicas, meios e materiais desde os mais tradicionais como a pintura e a litografia até o uso de modernas tecnologias, como o Star Walk, um

aplicativo – guia interativo de astronomia que mostra objetos celestes nas posições exatas no céu, em tempo real. A captura dessas imagens é projetada sobre uma pintura realizada com folhas de ouro, considerado o mais nobre dos metais, o mais durável, que convive nesta exposição com a leveza das

penas de pássaros encontradas e coletadas pela artista, e com esse céu que está em permanente movimento.

As relíquias – penas, penugens, menções a ninhos e abrigos, a guardados como a caixa do faqueiro, os potes de cristal, o Agnus Dei que dá nome justo àquela obra que não retém o céu – nos remetem à importância das memórias e do sentimento de uma certa permanência no tempo, enquanto que

as representações do universo com suas constelações nos revelam o quanto esse mesmo tempo éinapreensível. Jamais o veremos da mesma forma, assim como jamais estaremos aqui da mesma forma.

 

O sistema cada vez maior de câmeras de vigilância pública espalhadas pelo mundo e sua simultaneidade ao vivo é um fato que chega a redimensionar a realidade, que funciona como um panótipo virtual. Tina constrói uma configuração estética para abordar e transformar um sistema de vigilância em uma operação que veicula idéias relativas à memória e ao tempo. “A memória – segundo Bérgson- é o poder que o espírito possui de tornar presente o que, irrevogavelmente, já passou. A memória faz o homem mais forte que a própria realidade e é capaz de trazer de volta ao seu espírito o tempo/espaço, os quais estariam fadados ao esquecimento”. Daí que a memória, nesta obra, torna-se um largo de resistência sob um olho tecnológico que inspeciona os movimentos humanos. Se os aparatos tecnológicos são aparatos do espírito humano, então é necessário que eles sejam também redimensionados. Para isto, a artista vem construindo uma série de trabalhos que lidam com a idéia de composição orgânica do próprio mundo. Este mundo, que é tele transportado via web, reorganiza-se em função de pesquisas artísticas relacionadas a visões de mundo mais humanas e profundas; daí que Tina Velho vai apropriar-se dos fundamentos criados por Mondrian para veicular imagens de paisagens da urbe e do campo, capturadas infinitamente pelas câmeras de vigilância. Na obra Mondrian Tropical, por exemplo, cidades tropicais do mundo são incorporadas aos esquemas das pinturas de Mondrian e à sua lógica de construção do espaço, com linhas horizontais e verticais e cores primarias como elementos da gênese de tudo o que existe e que nos é próximo.

2010 - present

2010 - present