Ernesto, Luis. Imagens Nômades

E.A.F. . Rio de Janeiro: Museu da República, 1998.

 

Se a reprodução mecânica centrada na questão

da reprotividade torna a autenticidade e o original
problemáticos, a simulação cibernética torna a
experiência, o próprio real, problemático.

­ Bill Nichols

 

Um scanner perscruta a superfície de um pequeno desenho. Como uma prótese do olho do artista, vai invadindo seus detalhes mais íntimos, esquadrinha e revela suas partes mais ocultas e, de repente, seleciona um detalhe mínimo, impossível ao olho humano e o captura, desmaterializa-o e eis que transformado agora em um personagem do mundo virtual, reaparece como pontos de luz na tela do computador. Este é o ínicio d o trabalho de Tina Velho, que se desenvolve numa contínua interação entre o artista e seu computador. Sua experiência como gravadora, permite que sua obra se constitua de um curioso e híbrido diálogo entre um processo artesanal e um sofisticado aparato tecnológico de manipulação de imagens.

A gravura como processo de multiplicação e reprodução colocou em questão um dos principais cânones das artes plásticas, o conceito de original. Este dependeria da existência única do objeto de arte, de sua realidade física, garantia de sua presença. Para Benjamin "o aqui e agora do origial constitui o conteúdo da sua autenticidade". Posteriormente a fotografia e o cinema reforçariam a complexidade da questão. Mas as cópias na gravura são inquestionavelmente "realidades físicas" ao menos se, grosseiramente, considerarmos estas últimas relacionadas à nossa percepção da "consistência" do que chamamos mundo real. Folhas de papel impressas onde uma imagem se apresenta de maneira imutável ao espectador que, passivo, a contempla.

Os trabalhos de Tina Velho, incorporam ao campo das artes as intricadas discussões trazidas pela informatização em nosso conceito de realidade. Seus trabalhos não podem mais ser pensados como "objetos" no sentido de sua realidade material. Pelo contrário, são pura virtualidades. Suas imagens absorvidas pelo computador são desmaterializadas, transformadas em um sistema numérico, um devir apenas, que pode ou não se atualizar, dependendo de um ato de escolha do artista ou do espectador que agora necessariamente deverá interagir com a obra.

A escala das imagens, a decomposição de suas cores, a repetição de módulos, seu modo de aparição (no papel ou na tela do computador), tudo é fluído e dinâmico. Não se pode nem mesmo falar em cópias já que, ao "tornar-se", a imagem é sempre rigorosamente a mesma.

Podendo se acessada através de uma "home page" de qualquer ponto do mundo, o espaço da galeria deixa de ser o limite da mostra. Sem paredes, a ubiqüidade torna-se uma de suas propriedades. Ao espectador, anteriormente passivo, sucederá o espectador/curador que ao selecionar as imagens que deseja ver, organiza sua própria exposição.

Tina desenvolve suas formas de modo a explorar seus diversos modos de atualização, de ampliações impressas à imagens-luz (RGB) do monitor, da decomposição de cores do sistema CMYK à imagem guardada em disquete (PICT, TIFF, etc.), da imagem-pixel (versão atomizada da imagem) à versões como "copypaste.tif" em que a repetição torna seu próprio módulo matriz.

Seu trabalho pode ser pensado como um processo tautológico, como uma eterna repetição do mesmo, diferente.

2010 - present

2010 - present