SARAIVA, Alberto

E.A.F.. Rio de Janeiro: Centro Cultural Oi Futuro, 2005.

"Sou homem; a nenhum outro homem considero estranho"

Miguel de Unamuno

 

pulsar pulsar pulsar
 

Em EAF - Estado de Atividade Funcional: Vida, Tina Velho apresenta um ambiente imersivo-interativo, formado por um conjunto variado de trabalhos que se complementam um ao outro, articulando passagens sinuosas ao sujeito inter-ativo e ator na obra. O som de um coração pulsando ocupa todo o espaço e um estetoscópio eletrônico está à disposição, logo na entrada. Ao auscultar-se, o sujeito imediatamente mixa as batidas de seu coração com as batidas do ambiente. É a porta de entrada para um grande circuito visual de imagens dinâmicas de pássaros, minhocas, larvas de borboletas e pulsos humanos que constituem um ambiente pulsante, no qual o visitante é capturado num amálgama que ressoa em uníssono.

 

O mecanismo interno das obras denota a pulsação presente em todos os seres e no universo. Essa circunscrição poderia ser apenas de caráter estético formal -- caso ela não introduzisse no grande plano visual uma unidade de distinção, um jogo específico, um game-arte: o jogo da memória. Memória, não baseada no armazenamento de informações, mas na deflagração de um conjunto de atividades que constituem a construção de uma realidade e um mundo, que projeta em seu substrato a pulsação, base total daquilo tudo que se conhece ou se propõe a conhecer.

 

É criado um grande campo visual interativo sobre algo que, cotidianamente, é quase invisível aos olhos. Entendemos que pulsar é mais sentir do que ver. Tina inverte: pulsar é mais ver do que sentir. A coisa é visual. Mas este visual é um jogo. Aqui, a cápsula da memória.

 

A artista exprime uma idéia de permanência, de fluxo permanente, que se configura como unidade e coletividade, onde o indivíduo é sempre solicitado a se colocar em relação e junto aos outros pulsares, e a se reconhecer homem, animal, similar a uma unidade morfo-fisiológica em sistema complexo, dotado de memória. Para Miguel de Unamuno -- em seu Do sentimento trágico da vida --, "o que determina um homem, o que faz dele um homem, um e não outro o que é e não o que não é, é um princípio de unidade e um princípio de continuidade. Um princípio de unidade primeiro, no espaço, graças ao corpo (...) e um princípio de continuidade no tempo, que tem a memória como base da personalidade individual." Em Estado de Atividade funcional: Vida, esta unidade -- este "eu" -- é conclamada a interagir, a lembrar... É um certo "eu" que se avizinha do "você" declamado por Walt Whitman. Algo para além das convenções.

 

Ainda devemos falar, talvez, que para a artista vida implica em morte, visto que a vida também é um processo de síntese e destruição, de anabolismo e catabolismo. Esta é a base do metabolismo humano ou de todas as reações bioquímicas de um ser vivo. Não seria assim todo o universo?

2010 - present

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